Escritores em apuros #3 - Personagens

setembro 22, 2020


Já disse isto inúmeras vezes: para mim, o que faz um livro ser maravilhoso são as personagens que o habitam. Mais do que um enredo magistralmente bem construído, amo personagens com sumo, com  dúvidas, com dramas, com defeitos, com múltiplas camadas e dimensões. E quando as personagens são assim, é muito mais fácil criar um bom enredo. 

Quando escrevi o meu livro, deixei que as personagens crescessem com  ele. Sabia as características principais delas, mas não as trabalhei a fundo, antes de começar a escrever. Agora, na passagem para a construção do segundo livro, estou a dedicar muito mais tempo a criar cada uma delas. Cheguei a uma técnica que se foi construindo sozinha, não aprendi nada sobre isto em cursos ou em livros sobre este tema. Simplesmente sentei-me e pensei como é que poderia trabalhar as minhas personagens.

Cheguei a uma "fórmula" que não sei até que ponto é falível mas que, até agora, me serve perfeitamente. Antes de começar a escrever, tratei de fazer nascer estas minhas novas pessoas. De facto, e ao contrário do que aconteceu com o primeiro livro, ainda não tenho o plot da história construído. Na verdade, sei que estas são as pessoas que vão fazer esta história, sei onde tudo começa, e porquê, mas ainda não sei que história é esta e está tudo bem com isso. Deixarei que a coisa flua precisamente com base nas personagens e depois logo se vê onde é que isto vai dar.

Para construir as personagens, usei uma grelha com as seguintes entradas:

  • Nome
  • Data de nascimento 
  • Idade (opto sempre, mesmo que não o diga no livro, por atribuir uma data concreta ao ponto de partida, de maneira a não me perder com isto)
  • Profissão
  • Porque é que esta personagem está na história / problema da personagem
  • Estado civil
  • Número de filhos
  • Co-relações entre esta personagem e as outras (no caso deste livro, há algumas personagens que têm ligações com outras)
  • Traços de personalidade
  • Características físicas
Uma das formas que encontrei de não me perder no aspecto físico das personagens foi imaginar como elas seriam se existissem. Pensei em que pessoa é que poderia representar este papel, se o livro se tornasse num filme, ou em quem é que eu imagino que esta personagem seria. 

Dou-vos um exemplo concreto: uma das minhas personagens "é" a Mila Kunis. Assim, sempre que estou a escrever sobre ela, sei que ela é morena, que tem olhos esverdeados, que arqueia as sobrancelhas de determinada forma e que tem uma voz doce. Desta maneira, não corro o risco de a descrever dizendo que tem olhos azuis ou que o cabelo alourado reflecte não sei o quê. Uma vez que estou a ir buscar uma pessoa que existe, a probabilidade de me baralhar é menor. 

Das minhas dez personagens iniciais, apenas uma nasceu ao contrário. Ou seja, apenas num caso eu soube que queria usar aquela pessoa real e transformá-la numa personagem deste livro, porque as suas características pessoais me interessavam para esta história. A partir da imagem dela, dei-lhe um nome, uma idade e por aí adiante. Todas as outras foram criadas antes e só depois pensei em que é que poderiam ser aquelas personagens, se elas existissem mesmo.

O facto de criar estas pessoas assim faz com que ganhe algum distanciamento delas e com que não me ponha a mim em todas elas em simultâneo. Não acredito que todos os livros sejam autobiográficos e não quero mesmo que nenhuma destas pessoas possa ser confundida comigo, por muito que possa pôr detalhes meus ou da minha própria vida em cada uma delas. Aconteceu no meu primeiro livro e foi propositado: usei algumas memórias da minha infância e adolescência - porque quis mesmo cristalizar aqueles momentos - e distribuí isso por várias personagens, em pontos distintos da história. Ou seja, há coisas ali que aconteceram efectivamente, tal como as descrevo, mas eu não sou nenhuma daquelas personagens, e nenhuma é um retrato fiel da Lénia-pessoa. 

Criar as personagens antes permite-me conhecê-las melhor e dar-lhes mais profundidade, que é o que me interessa neste novo livro. O que acontece a seguir, para onde é que elas vão, que caminhos é que a história toma... são tudo coisas que descobrirei à medida que for escrevendo. Para já, digo apenas que estou a adorar conhecer estas dez pessoas e que estou felicíssima por poder pô-las numa espécie de choque em cadeia...

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