Estes Dias | 8

setembro 09, 2020

 


Alzira arrumou a cozinha quando Esperança acabou o pequeno-almoço. Sentada num banco, a vizinha trauteava uma música antiga e os nervos de Alzira a enlearem-se como novelos de lã nas patas de gatos ariscos. Não havia forma nenhuma de olhar para aquela situação sob uma perspectiva positiva. Na televisão, continuavam os directos dos vários pontos de reportagem com cenários mais ou menos caóticos na rectaguarda.


— Como é que vai ser com a comida, dona Alzira? Tem cá que chegue para nós as duas nos aguentarmos por uns tempos? E como é que vamos fazer com as dormidas? As minhas costas não aguentam nem mais uma noite que seja naquele sofá. Não me leve a mal, ele até é jeitosinho, mas não é como dormir num colchão e eu não vou para nova. Mas ajeitamo-nos as duas na sua cama, havemos de lá caber de certeza.


Alzira não queria acreditar no que estava a ouvir. De repente, já não era só a cozinha que sentia invadida. A sua cama também estava à mercê daquela louca que não tinha a mínima noção de limites. Deu por si a pensar numa forma de se escapar da sua própria casa. 


— A comida dá para um dia ou dois, mas depois vai mesmo ter de se ir embora. Aliás, é melhor ir já antes que eles se lembrem de começar aí a fiscalizar tudo e mais alguma coisa. A sua viagem é bem pequena, não há como ser descoberta — respondeu Alzira, na esperança de que a mulher se mentalizasse de que o melhor que tinha a fazer era voltar para casa e para as suas coisas.

— Isso é que era bom! Nem pensar! Já viu o perigo em que me quer meter? Eu nem quero acreditar que me está a tentar mandar para casa com um homem que me quer matar! Imagine que ele me mata mesmo. Como é que você vai conseguir viver sabendo que a culpa foi sua, que foi você que me mandou para lá? De certeza que quer ter essa conta para acertar com Deus, dona Alzira?

— Vai ver que não vai ser nada assim. O seu marido de certeza que já se acalmou, ele só teve ali um momento mais alterado, mas certamente já passou. E não se preocupe com as minhas contas com Deus, que eu tenho o saldo bem equilibrado. Sabe, vivo há quase setenta anos sossegada no meu canto, não me meto na vida de ninguém, não incomodo ninguém, só quero mesmo é estar em paz. Não há inferno que queira uma pasmaceira destas, acredite.

— Ó dona Alzira, o Diabo gosta é de gente assim, que parece uma coisa e vai-se a ver é outra. Tenho a certeza de que a senhora não é tão santa como quer fazer crer. Não devo demorar muito a começar a encontrar os seus podres… quer apostar?

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