Estes Dias | 9

setembro 21, 2020

 

Alzira trancou-se no quarto. O barulho da televisão ligada no programa da manhã da apresentadora histriónica era só mais uma coisa a beliscar-lhe os nervos, já bastante esfrangalhados pela curta estadia da vizinha. Deitou-se em cima da cama e fixou um ponto no tecto. Contou até 10. Depois até 50. Valia tudo para tentar acalmar-se. Num dia normal, estaria a lavar o chão, calma e tranquila sem a mínima preocupação. Hoje precisava de um calmante extra.


 A imposição governamental de manter cada um na sua casa não ajudava. E não era por Esperança. Ter de estar trancada em casa significava que não podia sair e que ninguém podia entrar. Noutra altura, teria bastado uma mensagem e, minutos depois, a campainha tocaria e ela abriria a porta sem perguntas. Era assim há muitos anos. Nos próximos tempos, teria de sobreviver sem isso. Nada que a primeira gaveta da mesinha de cabeceira não ajudasse a resolver. 


Abriu a bata velha e coçada. Deitada, a barriga era quase imperceptível. Abriu a gaveta devagar. Agradeceu a voz aguda da apresentadora de televisão, que continuava a ouvir ao longe. Esperança não ouviria o zumbido e Alzira poderia, finalmente, aliviar um pouco aquela tensão.

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