Abriu a janela e o pássaro, mesmo solto, escolheu ficar. Pousou-lhe no ombro, bicou-lhe a orelha, talvez tenha deixado no ar um trinado qualquer. Nem todas as prisões são necessárias, pensou. A este, não fazia falta a janela fechada, só a segurança da alpista e da água fresca, os gestos de amor possíveis entre humanos e pássaros. Talvez não seja preciso amarrar nada. O maior dos amores é livre, pode ir embora, mas prefere ficar onde sente o coração pulsar. Um amor feito de amarras não é amor. Quando nada te prende e ficas mesmo assim — isso é amor.
Era toda uma névoa de pensamentos enleados e não saber para onde ir a seguir, a chuva que caía violenta sobre o cabelo desprotegido, o frio a vergar corpos, o anoitecer triste sobre os carros, as luzes a incendiarem poças de água, despojos do dia guardados no sítio onde se guardam as memórias a que não voltamos. Era Ana e o telefone na mão, a bateria a querer morrer, a incerteza a crescer dentro dela, a estrada a fugir-lhe dos pés e ele na outra ponta da cidade, o corpo ainda quente, o cheiro ainda vivo e afinal o fim.
Apetece-me partilhar convosco aquilo que sei fazer melhor: escrever ficção. Ando dividida entre vários projectos de escrita (e ODEIO a palavra projecto e o conceito de projecto, mas por agora chamemos-lhes isto: projectos), com pouco tempo para me dedicar a tudo com a atenção que isto me merece. Ainda assim, sinto falta dessa vertente por aqui. Porque esta é a minha casa.
No seguimento das mudanças de hábitos que estou a tentar fazer, mais uma: escrever aqui ficção com mais frequência. Sem obrigatoriedade nem cadência estipuladas, mas a tentar não perder o ritmo. Posto isto, regressam os micro-contos em 100 palavras. Parece-me um bom sítio por onde começar. Pode acontecer achar que algumas das ideias que forem surgindo mereçam mais do que 100 palavras. Se isso acontecer, volto a elas noutros moldes.
Não quero fazer disto um blog literário nem de escrita criativa. Mas quero investir cada vez mais nisto. E, de caminho, uso a minha plataforma onde vocês já sabem do que a casa gasta. Haja tempo. E palavras.
No seguimento das mudanças de hábitos que estou a tentar fazer, mais uma: escrever aqui ficção com mais frequência. Sem obrigatoriedade nem cadência estipuladas, mas a tentar não perder o ritmo. Posto isto, regressam os micro-contos em 100 palavras. Parece-me um bom sítio por onde começar. Pode acontecer achar que algumas das ideias que forem surgindo mereçam mais do que 100 palavras. Se isso acontecer, volto a elas noutros moldes.
Não quero fazer disto um blog literário nem de escrita criativa. Mas quero investir cada vez mais nisto. E, de caminho, uso a minha plataforma onde vocês já sabem do que a casa gasta. Haja tempo. E palavras.
16.
Talvez fosse o instinto. Quando a viu, menina inocente a andar sozinha na rua, o céu a ameaçar desabar em cima das suas cabeças, Novembro frio como as ausências, não pôde fugir. As mãos em cima dela como certezas, o corpo preso contra a parede, maneira nenhuma de a deixar escapar. A braguilha das calças aberta num repente, o antebraço a sufocá-la enquanto se ajeitava dentro dela, o corpo a rasgar-se, os gritos que calou com a palma da mão. Nos olhos toda a raiva, todo o desejo, tudo o que não cumpriu noutros corpos. Lurdes seria sua para sempre.
17.
Ficava nas últimas filas, normalmente de pé, apenas a vislumbrar o escritor que apresentava a obra. Deixava-se ficar para trás na fila para os autógrafos e, quando chegava a sua vez, murmurava o seu nome de maneira quase inaudível. Regressava a casa com os livros rabiscados, quase nunca sabia o que estava lá escrito. Pousava os livros na mesa de cabeceira — haveria de os ler em breve — e ia sentar-se ao computador. Fixava a página em branco e nada acontecia. Cada vez mais longínquo o sonho de um dia ser ele a autografar os livros que tivesse escrito.
18.
Meu amor, pedes-me que me desfaça em silêncios e eu sou incapaz. Não escolhi este bater intenso do coração, nem me arrastei para este lugar quente de onde não sei sair. Já procurei nomes e definições mas termina tudo nos teus braços, na certeza de que estou onde tenho de estar. Não é que não tenha mais sítios para onde ir. Simplesmente fechei os mapas e não e importam outras geografias. Não quero saber do que há para lá dos terrenos em que nos fundámos. Não quero saber de nada que não me caiba no peito. Tu habitas-me o coração.
19.
Naquelas noites geladas em que ela se sentava à beira da minha cama, a ver-me dormir, eu inquietava-me no sono como se a sentisse. Só sabia que ela tinha estado ali no dia seguinte, porque via as mantas alinhadas de maneira diferente. Durante o dia, não perdia uma oportunidade. Puxava-me os cabelos: enrolava um punhado na mão direita e puxava, sem dizer nada. Eu deixava a cabeça descer para evitar a dor. Nunca perguntei porquê. Nunca chorei de dor. Se me via andar pelo corredor, assentava-me com um cinto nas costas. Eu continuava a andar. Esta era a minha avó.
20.
Levámos-te dentro de um pote que comprámos numa loja de chineses. Entregámos o vaso ao homem da funerária, que prometeu devolver-te desfeito em cinzas. Vinhas quente ainda. Pegámos naquilo sem saber muito bem o que fazer. Recusei colocar-te a servir de bibelot em cima da lareira. Seria demasiado irónico. Saímos do crematório sem destino. Tu não gostavas de sítio nenhum em particular. Podias ter-nos facilitado a vida, podias ter gostado de praia ou do campo, quem sabe de passear pela serra. Mas não. Gostavas era de passar as tardes a jogar à sueca no jardim... Algumas cartas ficaram com cinzas.
21.
Quando entraste fechei a porta atrás de ti, segura de ter em casa tudo quanto me faltava. Ironia, sabes? Como é que eu podia ter tudo o que me fazia falta quanto tu não me davas nada? Eras a definição de ilusão de óptica: estavas não estando, davas não dando, eras não sendo. Ofereci-te aquele lugar onde pouca gente tinha estado. Quis que ficasses confortável e que não te faltasse nada. Dei-te tudo quanto tinha, sem reservas nem medo de errar. Era a vida, sabes? Era a vida e nela havia amor. Saíste e tranquei a porta atrás de ti.
22.
Às vezes, a morte é apenas uma pequena amostra de paraíso. Morremos porque nos esgotámos em opções irrisórias. Desistimos de tentar caber em sítios onde não há espaço suficiente para nós. Foi o que aconteceu com Joaquim. Deu por si um dia esvaziado. Não tinha nada a que voltar quando regressasse a casa. Os braços estendidos ao longo do corpo, a cabeça tombada, o olhar vazio, os pés que se arrastavam sem saber que caminho tomar. Percebeu que o seu fim era o passo seguinte, o que estaria do lado de lá da curva. Caminhou até lá e deixou-se morrer.
23.
Eram punhais afiados a rasgarem-me a pele, traços fininhos de onde saíam fios de sangue que me tornavam a pele morena cada vez mais viscosa, cada vez mais aberta, cada vez mais morta. Já não chorava porque me esgotara antes disso. Deixei de querer saber. Vivia em serviços mínimos, o meu corpo fazia o suficiente para se manter vivo, funções vitais activadas e nada mais do que isso. Bloqueei a memória. Travei os desejos. Fechei-me numa cave escura que cheirava a mofo e a coisas podres e deixei-me ficar enquanto a morte se foi aproximando lentamente. Fechei os olhos. Morri.
24.
Há uma fotografia em cima do aparador. Parece uma cena inconsequente. Dois rostos colados, cabelos revoltos, ao fundo o mar. O dia estava frio. O mar picado batia nas rochas e fazia aquele barulho que nos suga e nos deixa sem chão. Abraçámo-nos com frio. Puseste as mãos nas minhas costas e puxaste-me para ti. Beijaste-me o pescoço ao de leve. Arrepiei-me. Beijaste-me embalado pelo vinho branco que bebemos ao almoço. Não sossegámos a urgência e acabámos meio despidos, a fazer amor dentro do carro, no parque de estacionamento. Eram três da tarde. Guardei as memórias, não tenho mais nada.
25.
As sombras caíam sobre o lago e tornavam-no sombrio. Nas margens, dois barcos amarrados a uma espécie de pontão. Costumava levar um desses barcos para passear por ali, só eu e o silêncio que restava depois das aves e do restolhar das ervas. Não sabia muito sobre barcos. Sabia apenas que, se remasse, chegaria a algum lado. Então remava. Sabia que não devia aproximar-me demasiado das margens: o que por norma era uma segurança, representava um perigo quando estás dentro de um barco. Não queria encalhar. Remava o suficiente para que as dores me fizessem esquecer o resto. Nunca faziam.
26.
De início, não entendia a violência da minha avó. Era como se o mundo fosse um inimigo mortal que urgia abater. Usava as armas que tinha: palavras duras, uma voz aguda e as palmas das mãos. De vez em quando transformava-se. Deixava de ser Camélia e era outra pessoa qualquer. Conheci-lhe várias caras. Demorei muito a perceber que, na verdade, a avó Camélia não era só a avó Camélia. Também era Laura e Isilda e José. Era várias pessoas que se desconheciam entre si - apenas Isilda conhecia todas. E eu não entendia. Depois percebi e deixei o medo de fora.
Jacinta disse Está ali uma senhora. Francisco perguntou Onde? Lúcia disse que não conseguia ver. Jacinta descreveu o manto azul, o cabelo escuro, o semblante sereno. Francisco disse que só via uma luz, como se o sol estivesse a nascer por cima daquela árvore. Lúcia disse que continuava sem conseguir ver. Jacinta perguntou Quem és tu e o que queres de nós? Silêncio. Francisco disse que a luz parecia mais intensa. Lúcia mandou-o desviar o olhar, ia ferir os olhos e ficar cego. Francisco não fez caso. Jacinta tornou a perguntar Quem és tu e o que queres de nós.
Gostava que, por um dia, o vento soprasse a meu favor. Talvez então pudesse deixar ir o trabalho que me massacra e render-me ao talento. Talvez então pudesse olhar de novo aquele sorriso que deixei escapar porque tive medo do que viria com a entrega. Talvez pudesse aprender a deixar que a brisa leve do fim de tarde me leve onde quer que eu faça falta. Cedi sempre ao medo. Deixei-me ficar. Agora, quase sessenta anos, os dias são pequenas ampulhetas que me recordam de quão pouco tempo me resta. Quem me dera ter tido coragem para não me entregar.
Amiúde, durante o tempo que dura um café bebido no varandim com vista para o rio, observo a vida lenta que acontece na casa em frente. Um homem, setenta e muitos anos, oitenta, talvez, anda devagarinho pelas divisões. Rega as plantas esquálidas no parapeito da cozinha. Faz a cama no quarto ao lado. Vai à janela estender umas cuecas e um par de meias, que apanhará dali a umas horas ou assim que der conta de ter começado a chover. Por vezes, depois de estender a roupa, assenta os cotovelos no parapeito, acende um cigarro e morre mais um pouco.
Hoje, só hoje, Isabel esqueceu os mortos. Deixou o cemitério trancado, não foi ajeitar ramos de flores falsas nem limpar o pó às fotografias que olhava sempre. Hoje Isabel preferiu um livro. Deixou-se ficar à porta, sentada na sua cadeira pequena, enquanto o dia descia rumo ao final. Não deu pela brisa que se levantou, não percebeu por que razão estava a ver pior. Tinha deixado que o título a cativasse e escolheu lê-lo sem saber nada acerca dele. Quando deu por si ia quase a meio. Deixou que a história a sugasse. Podia ser a sua história. Talvez fosse.
Menina Eulália fazia questão no batom cor de rosa muito brilhante, a tinta a desbotar pelas rugas pequeninas que lhe mirravam a boca, os dentes alvíssimos, muito direitos que dormiam as noites dentro de um copo com uma pastilha de limpeza. Os olhos azuis já baços guardavam todas as histórias. Tinha sido uma mulher lindíssima. Exibia fotografias antigas porque se orgulhava no epíteto que conquistara a reboque da genética: era a mulher mais bonita daquela cidade. Teria podido escolher o marido que bem entendesse; todos a queriam. Escolheu viver sozinha, livre de encargos e preocupações, só ela e a vida.
Não sei se chovia ou se criei esta memória por combinar melhor com solidão. Talvez fosse o princípio da Primavera, não sei precisar. Sei que estava em casa, os olhos postos numa parede manchada, o pensamento longe, quase congelado. A princípio, o toque do telefone pareceu-me distante, quase como se estivesse noutra casa. Depois percebi que vibrava junto às minhas pernas. Atendi. Do outro lado, um silêncio pesado entrecortado por um fungar aflitivo. Esperei que alguém falasse. Silêncio e lágrimas, apenas. Não reconheci o número, estava demasiado alienada. Talvez fosse engano, pensei. Então aquela voz de sempre disse apenas Morreu.
Quando deixei de conseguir dizer-te tudo o que o meu peito guardava, escrevi. Na minha cabeça, construiu-se a canção. A melodia rasgou o silêncio e tornou-o insuportável. Não voltei a ele. Cantei-te ao ouvido mil vezes. Deixei a letra escrita num papel qualquer, presa no vidro do teu carro. Disse-te que te amo em cada verso e em cada nota. Tu ouviste sempre. Olhavas-me nos olhos, aquele brilho que disfarçavas, e eu sabia. Talvez não fossem amores iguais, porque não há amores iguais. Mas ao teu jeito e ao teu tempo, em silêncio e entre olhares, aquilo também era amor.
Claro que já falhei dois dias... Não importa. Depois apanhei o ritmo e compensei. É um trabalho giro. Tento fugir dos temas que me são óbvios - mortes, solidão, amores que doem no peito, saudade - e procuro pontos de vista diferentes. Escrever em 100 palavras não é fácil. É preciso ser concisa e não fazer daquilo apenas uma divagação. Acresce que não quero perder a minha voz, a minha maneira de escrever e isso, nesta brincadeira, tem sido o mais desafiante.
A juntar a isto, o facto de ter voltado a escrever um romance. Ou seja, eu, que sempre fui muito mais de textos curtos do que de romances, dou por mim a tocar os dois pontos e a brincar nas duas vertentes. E isso também me obriga a manter cada coisa de sua maneira: no romance não tenho de me limitar tanto (bem pelo contrário), nas micro histórias não tenho como me dispersar.
Estou a gostar muito mesmo deste desafio. E já só faltam 89 micro contos...
A juntar a isto, o facto de ter voltado a escrever um romance. Ou seja, eu, que sempre fui muito mais de textos curtos do que de romances, dou por mim a tocar os dois pontos e a brincar nas duas vertentes. E isso também me obriga a manter cada coisa de sua maneira: no romance não tenho de me limitar tanto (bem pelo contrário), nas micro histórias não tenho como me dispersar.
Estou a gostar muito mesmo deste desafio. E já só faltam 89 micro contos...
