Ela nunca me disse, mas eu sabia. Olhava-a nos olhos e sabia que aquilo só podia ser amor. Não sendo amor, como é que se tolerava aquilo, a dor, a carne rasgada, a pele em sangue, os ossos visíveis a perfurarem a pele? Não sendo amor, como é que se toleravam as palavras rudes, os insultos, a violência? Eu sabia que era amor. Ela não aceitaria nada a não ser por amor. Ter-se-ia ido embora, teria levado tudo, ter-me-ia deixado sozinho, teria partido sem deixar rasto nem maneira nenhuma de a encontrar. Não sendo por amor, talvez fosse por medo.
Cá dentro jazem eles, os que matei porque não conseguia ouvi-los, os que escondi entre palavras sussurradas, os que gritam e pedem que os salve. Cá dentro jazo eu, morto e inacabado, uma vida de mil vidas, às vezes maior que o silêncio que me engole, outras vezes apenas um farrapo de desespero. Sou eu que vivo tanta gente e não sei de todos, nem sempre os reconheço quando aparecem, nem sempre lhes abro a porta, mas eles entram sempre, ganham cada batalha, tornam-me num cenário de guerra manchado de sangue e de recordações que não são minhas. Antes morresse.
É a agonia de te saber noutra casa, noutra cama, a pores comida noutros pratos, a abrires outras janelas, a dares água a outras plantas. O vómito de me desfazer a cada instante, antes tu, agora nada, a vida esbatida e rasurada, não foi nada disto que te pedi.
As promessas foram hiatos, a voz que te sai da garganta e não quer dizer nada, só as mãos na minha carne e apesar disso nada. Sempre nada. Nunca foi nada.
E tu imenso e tão vazio, silêncio frio de inverno a chegar.
E eu tão morta e tão sozinha. Fim.
Não te vi fugir. Não foste o desertor que se funde com a paisagem até se tornar fumo e névoa. Não foste o verbo da ausência nem a casa de porta encostada. Foste a vida em modo promessa, viver agora o que queremos viver depois, a antecipação do amor. Foste a fotografia envelhecida na moldura, o nome que herdaram os que vieram depois de ti. Foste o propósito e a consequência, o silêncio entre palavras, sempre maiores os intervalos do que as permanências. Foste a história contada sem artefactos e todos os beijos que ficaram por dar. Nunca te entendi.
