Às vezes, a minha vida acontece numa concha fechada. Tem sido assim. Gosto pouco de viver em palcos. Gosto de viver dentro de portas. De mim sei eu. Partilho o essencial e, mesmo assim, às vezes acho que falei de mais. Prefiro guardar para mim o que é verdadeiramente importante. Costumo dizer que sou a pessoa extrovertida mais reservada do mundo. E sou. De mim, sabe-se o que eu deixo que se saiba. À superfície, vem aí 1% de tudo. O resto é meu. Sentimentos, vontades, planos, ideias. Guardo tudo. Porque não interessa ao mundo; interessa-me a mim. E gosto pouco de plateias e de holofotes em cima da minha vida. Sei lá... se calhar estou só cada vez mais bicho-do-mato. Ou estou a aprender a defender-me de coisas que não me fazem falta e que, na verdade, só atrapalham.
Abriu a janela e o pássaro, mesmo solto, escolheu ficar. Pousou-lhe no ombro, bicou-lhe a orelha, talvez tenha deixado no ar um trinado qualquer. Nem todas as prisões são necessárias, pensou. A este, não fazia falta a janela fechada, só a segurança da alpista e da água fresca, os gestos de amor possíveis entre humanos e pássaros. Talvez não seja preciso amarrar nada. O maior dos amores é livre, pode ir embora, mas prefere ficar onde sente o coração pulsar. Um amor feito de amarras não é amor. Quando nada te prende e ficas mesmo assim — isso é amor.
Não vi o programa da polémica de hoje (Supernanny, da SIC), mas li imensa coisa e percebi o contexto (não sabendo exactamente o conteúdo - ou seja, sei que há uma criança que precisou de uma "intervenção", sei que há uma família e uma psicóloga (que, segundo a própria não está ali na condição de psicóloga). Mas o que há aqui é uma família que foi paga para expor uma situação familiar em torno de uma criança).
Por pontos:
1. Quem me segue e sabe que tenho dois filhos, já se apercebeu de que eles não aparecem em lado nenhum, de maneira explícita. Não há UMA foto deles na net, daquelas que permitem identificá-los. Zero. Porquê? Porque eu não sou dona da vida (nem do futuro) deles. Eles têm direito à sua privacidade, a serem protegidos, a não serem expostos por serem meus filhos. Uma coisa é contar um ou outro episódio sobre eles. Outra, bem diferente, é inundar tudo quanto é rede social com milhares de imagens deles. Imaginem que, daqui a uns anos, um deles resolve que quer trabalhar na PJ, como agente infiltrado. Pois... lá se vai... tudo. Imaginem, simplesmente, que são pessoas reservadas, a quem não interessa serem conhecidos. Pois... Eu não tenho o direito de usar a imagem deles para o que quer que seja. eu não ganho dinheiro à custa dos meus filhos. Ah, e tal, e os miúdos que são modelos? Certo. Não tem nada a ver. Vestem uma personagem, não há grande maldade nisso. Quando os meus filhos quiserem aparecer (e tiverem idade para isso), veremos o que acontece. Até lá, não os exponho. Sei de outra polémica qualquer que houve há pouco tempo, na blogosfera, sobre fotos de crianças a usarem penicos. Vocês gostavam que as vossas mães tivessem disponibilizado este tipo de imagens vossas ao mundo? Eu ODIAVA. E não faço aos meus filhos o que não gostaria que a minha mãe me fizesse a mim. Já bastam as fotos oficiais da escola, com aqueles modelitos assustadores, que nos envergonham a todos sempre que a nossa mãe se lembra de sacar do álbum nos almoços de família.
2. Até acredito que aquela criança em particular precise de ajuda. Há vários sítios onde pode recebê-la. Nenhum envolve câmeras, maquilhadores, guiões e afins. O que há aqui é uma exploração atroz de uma situação delicada. Como é que aquela criança vai ser vista, daqui em diante, no seu dia-a-dia? Reality shows em tenra idade, a sério? Não bastam as tretas das Casas dos Segredos? É mesmo preciso descer tão baixo...?
Os meus filhos são meus, mas eu não sou dona deles. Eles têm direito à sua privacidade, têm direito de não serem conhecidos, têm o direito de poder, um dia destes, ir a uma entrevista de emprego sem que os futuros empregadores os vejam sentados num penico, ou todos sujos de papa, ou a fazer a birra de uma vida. (São tudo situações normais, certo. Mas nós também não gostamos muito de aparecer lavados em lágrimas ou bebedíssimos, pois não? Se nos resguardamos de situações constrangedoras, porque é que os expomos a eles? E mesmo que não sejam situações más, porque é que os expomos, de todo?)
Já disse isto aqui várias vezes: para mim, a vaidade que tenho nos meus filhos (e, portanto, o orgulho que possa ter em mostrá-los) não poderá ser nunca superior ao seu direito à privacidade. Eles têm a vida pela frente. E a vida deles é deles, não é minha. Eu não sou ninguém para decidir que eles são material de exposição. A net não é tão privada nem tão segura como possamos pensar. E o que aparece uma vez na net fica para sempre na net. E e calhar há coisas que não cabem em lado nenhum a não ser na esfera privada de cada um...
Por pontos:
1. Quem me segue e sabe que tenho dois filhos, já se apercebeu de que eles não aparecem em lado nenhum, de maneira explícita. Não há UMA foto deles na net, daquelas que permitem identificá-los. Zero. Porquê? Porque eu não sou dona da vida (nem do futuro) deles. Eles têm direito à sua privacidade, a serem protegidos, a não serem expostos por serem meus filhos. Uma coisa é contar um ou outro episódio sobre eles. Outra, bem diferente, é inundar tudo quanto é rede social com milhares de imagens deles. Imaginem que, daqui a uns anos, um deles resolve que quer trabalhar na PJ, como agente infiltrado. Pois... lá se vai... tudo. Imaginem, simplesmente, que são pessoas reservadas, a quem não interessa serem conhecidos. Pois... Eu não tenho o direito de usar a imagem deles para o que quer que seja. eu não ganho dinheiro à custa dos meus filhos. Ah, e tal, e os miúdos que são modelos? Certo. Não tem nada a ver. Vestem uma personagem, não há grande maldade nisso. Quando os meus filhos quiserem aparecer (e tiverem idade para isso), veremos o que acontece. Até lá, não os exponho. Sei de outra polémica qualquer que houve há pouco tempo, na blogosfera, sobre fotos de crianças a usarem penicos. Vocês gostavam que as vossas mães tivessem disponibilizado este tipo de imagens vossas ao mundo? Eu ODIAVA. E não faço aos meus filhos o que não gostaria que a minha mãe me fizesse a mim. Já bastam as fotos oficiais da escola, com aqueles modelitos assustadores, que nos envergonham a todos sempre que a nossa mãe se lembra de sacar do álbum nos almoços de família.
2. Até acredito que aquela criança em particular precise de ajuda. Há vários sítios onde pode recebê-la. Nenhum envolve câmeras, maquilhadores, guiões e afins. O que há aqui é uma exploração atroz de uma situação delicada. Como é que aquela criança vai ser vista, daqui em diante, no seu dia-a-dia? Reality shows em tenra idade, a sério? Não bastam as tretas das Casas dos Segredos? É mesmo preciso descer tão baixo...?
Os meus filhos são meus, mas eu não sou dona deles. Eles têm direito à sua privacidade, têm direito de não serem conhecidos, têm o direito de poder, um dia destes, ir a uma entrevista de emprego sem que os futuros empregadores os vejam sentados num penico, ou todos sujos de papa, ou a fazer a birra de uma vida. (São tudo situações normais, certo. Mas nós também não gostamos muito de aparecer lavados em lágrimas ou bebedíssimos, pois não? Se nos resguardamos de situações constrangedoras, porque é que os expomos a eles? E mesmo que não sejam situações más, porque é que os expomos, de todo?)
Já disse isto aqui várias vezes: para mim, a vaidade que tenho nos meus filhos (e, portanto, o orgulho que possa ter em mostrá-los) não poderá ser nunca superior ao seu direito à privacidade. Eles têm a vida pela frente. E a vida deles é deles, não é minha. Eu não sou ninguém para decidir que eles são material de exposição. A net não é tão privada nem tão segura como possamos pensar. E o que aparece uma vez na net fica para sempre na net. E e calhar há coisas que não cabem em lado nenhum a não ser na esfera privada de cada um...
Para 2018 mantenho o objectivo que tinha em 2017: quero ver pelo menos 104 filmes. Hoje é dia 15 e já vi... doze. Como? Quatro filmes por fim-de-semana e a coisa dá-se. Bom, mas o que quero mesmo é dizer-vos isto: ontem, sem filhos e sem melhor amiga por perto, com ponte aérea em modo ponte aérea, estava sozinha e sem planos. Excepto cinema. Decidi que queria ir ver dois de quatro filmes. As opções eram "Três Cartazes à Beira da Estrada", "Jogo da Alta Roda", "Só Para Ter a Certeza" e "Wonder". Ginástica de sítios e horários de sessões e acabei a ver os dois primeiros. E que tal?
"Três Cartazes à Beira da Estrada" é um drama pesado, que fala sobre justiça (ou a falta dela) e sobre os pequenos vícios das cidades pequenas. Aquilo vai em crescendo e somos sugados para a angústia daquela mãe que, vendo que ninguém faz muito para descobrir quem raptou, violou e matou a filha, resolve atirar ao chão a primeira peça do dominó, na esperança de que tudo o resto caia a seguir. E cai. Frances McDormand a pôr-se a jeito para mais uma nomeaçãozinha para o Oscar e um Woody Harrelson que me faz confusão ver envelhecido (porque me lembro dele bem mais miúdo... quando também eu era bem mais miúda!). Nove estrelinhas em 10. Vale muito a pena.
"Jogo da Alta Roda" é puro entretenimento. No bom sentido. Baseado num caso verídico, conta a história de Molly Bloom que, algures nos anos 2000, deu por si a organizar todo um esquema de jogos de poker. Jessica Chastain a mostrar que sabe o que anda aqui a fazer e um Idris Elba fabuloso (eu sou daquelas parolas que fica sempre estarrecida quando apanha actores britânicos a representarem americanos sem sombra da sua very British accent!) dão corpo a tudo isto. A maneira como a história anda para a frente e para trás, para nos mostrar motivações e justificar acções, está muito bem conseguida. Estive duas horas completamente desligada do mundo e não são todos os filmes que conseguem fazer isto. Não sendo um filme de acção aceleradíssimo (nada disso), é daqueles filmes que nos mantém offline por um tempo e isso é muito bom. Ah, e no final, cena do tribunal, olhei para a Jessica Chastain e pensei que também teria gostado muito de ver isto feito pela Julia Roberts. Não sei porquê, porque acho que esta senhora também é capaz de sacar um lugarinho nos cinco favoritos, lá no Dolby Theater...
"Três Cartazes à Beira da Estrada" é um drama pesado, que fala sobre justiça (ou a falta dela) e sobre os pequenos vícios das cidades pequenas. Aquilo vai em crescendo e somos sugados para a angústia daquela mãe que, vendo que ninguém faz muito para descobrir quem raptou, violou e matou a filha, resolve atirar ao chão a primeira peça do dominó, na esperança de que tudo o resto caia a seguir. E cai. Frances McDormand a pôr-se a jeito para mais uma nomeaçãozinha para o Oscar e um Woody Harrelson que me faz confusão ver envelhecido (porque me lembro dele bem mais miúdo... quando também eu era bem mais miúda!). Nove estrelinhas em 10. Vale muito a pena.
"Jogo da Alta Roda" é puro entretenimento. No bom sentido. Baseado num caso verídico, conta a história de Molly Bloom que, algures nos anos 2000, deu por si a organizar todo um esquema de jogos de poker. Jessica Chastain a mostrar que sabe o que anda aqui a fazer e um Idris Elba fabuloso (eu sou daquelas parolas que fica sempre estarrecida quando apanha actores britânicos a representarem americanos sem sombra da sua very British accent!) dão corpo a tudo isto. A maneira como a história anda para a frente e para trás, para nos mostrar motivações e justificar acções, está muito bem conseguida. Estive duas horas completamente desligada do mundo e não são todos os filmes que conseguem fazer isto. Não sendo um filme de acção aceleradíssimo (nada disso), é daqueles filmes que nos mantém offline por um tempo e isso é muito bom. Ah, e no final, cena do tribunal, olhei para a Jessica Chastain e pensei que também teria gostado muito de ver isto feito pela Julia Roberts. Não sei porquê, porque acho que esta senhora também é capaz de sacar um lugarinho nos cinco favoritos, lá no Dolby Theater...
Era toda uma névoa de pensamentos enleados e não saber para onde ir a seguir, a chuva que caía violenta sobre o cabelo desprotegido, o frio a vergar corpos, o anoitecer triste sobre os carros, as luzes a incendiarem poças de água, despojos do dia guardados no sítio onde se guardam as memórias a que não voltamos. Era Ana e o telefone na mão, a bateria a querer morrer, a incerteza a crescer dentro dela, a estrada a fugir-lhe dos pés e ele na outra ponta da cidade, o corpo ainda quente, o cheiro ainda vivo e afinal o fim.
Não basta gostar, não basta gostar muito, não basta amar. É preciso dizer que se gosta, que se gosta muito, que se ama. É preciso mostrar. Em gestos pequenos e em gestos grandiosos. Uma mensagem de bom dia. Um abraço. Um elogio. Um "vi isto e lembrei-me de ti". Um presente inesperado. Um convite só para matar saudades. Ceder o melhor lugar no sofá. Acordar mais cedo para fazer café. Preparar "aquele" jantar. Planear um passeio. Gramar com aquela série de que não se gosta só para fazer companhia. Ouvir até ao fim. Não interromper. Calçar os sapatos alheios e entender. Dar a mão. Engolir sapos (não todos). Podes gostar muito, podes amar. Se não mostrares, isso vale muito pouco. Porque, assumindo que bolas de cristal são coisas do reino da ficção, o outro não adivinha. Isto vale para amigos, família, namorados, maridos, o que for. Acresce o seguinte: hoje estamos cá todos, amanhã podemos não estar. Não deixes por dizer, não deixes por mostrar. Se gostas, cuida, trata, protege, rega, alimenta, segura, vai até ao fim do mundo, se for preciso. O amor, seja de que tipo for, é demasiado valioso para ser deixado por mostrar.
Apetece-me partilhar convosco aquilo que sei fazer melhor: escrever ficção. Ando dividida entre vários projectos de escrita (e ODEIO a palavra projecto e o conceito de projecto, mas por agora chamemos-lhes isto: projectos), com pouco tempo para me dedicar a tudo com a atenção que isto me merece. Ainda assim, sinto falta dessa vertente por aqui. Porque esta é a minha casa.
No seguimento das mudanças de hábitos que estou a tentar fazer, mais uma: escrever aqui ficção com mais frequência. Sem obrigatoriedade nem cadência estipuladas, mas a tentar não perder o ritmo. Posto isto, regressam os micro-contos em 100 palavras. Parece-me um bom sítio por onde começar. Pode acontecer achar que algumas das ideias que forem surgindo mereçam mais do que 100 palavras. Se isso acontecer, volto a elas noutros moldes.
Não quero fazer disto um blog literário nem de escrita criativa. Mas quero investir cada vez mais nisto. E, de caminho, uso a minha plataforma onde vocês já sabem do que a casa gasta. Haja tempo. E palavras.
No seguimento das mudanças de hábitos que estou a tentar fazer, mais uma: escrever aqui ficção com mais frequência. Sem obrigatoriedade nem cadência estipuladas, mas a tentar não perder o ritmo. Posto isto, regressam os micro-contos em 100 palavras. Parece-me um bom sítio por onde começar. Pode acontecer achar que algumas das ideias que forem surgindo mereçam mais do que 100 palavras. Se isso acontecer, volto a elas noutros moldes.
Não quero fazer disto um blog literário nem de escrita criativa. Mas quero investir cada vez mais nisto. E, de caminho, uso a minha plataforma onde vocês já sabem do que a casa gasta. Haja tempo. E palavras.


