O meu Natal perfeito tem uma lareira acesa e torradas feitas ao lume. Tem Sozinho em Casa e Música no Coração. Tem pijama e roupão. Tem chá verde às três da manhã. Tem frio nos pés e saco de água quente na cama. Tem as minhas tias a atropelarem-se na cozinha. Tem gargalhadas e jogos de cartas. Não tem roupa de gala, não tem saltos altos nem vestidos novos. Não tem maquilhagem nem penteados. Não tem competição para ver quem recebe o presente mais caro. Este ano, o meu Natal perfeito tem os miúdos em histeria antes da meia-noite, porque ali ninguém quer saber das horas marcadas. Este ano, o meu Natal tem um abraço quentinho que vai chegar uns dias antes e isto é tudo o que eu preciso para ter um Natal (mais que) perfeito.
Entrei em 2018 de coração ferido. 2017 tinha sido um ano muito difícil, 2018 não estava a prometer ser muito melhor. Fechei-me um bocadinho, sentia-me mergulhada em águas turvas, a tentar vir à superfície para respirar.
Janeiro foi introspecção. Foi não saber onde estava a pôr os pés, foi não saber para onde ir. Estava perdida e Janeiro não ajudou.
Em Fevereiro, 39 anos e a certeza de que estava no sítio errado. A nuvem negra perseguia-me e eu ali andei, meio arrastada. Lembro-me de me sentir completamente enrolada num novelo de arame farpado e de querer muito soltar-me, reencontrar-me e voltar a ser quem eu sou. Ainda demorou.
Março foi lodo.
Em Abril, fui pagar a promessa que fiz quando a minha mãe teve o rebentamento do aneurisma cerebral. Cinco dias duríssimos, muitas dúvidas, muitas certezas que não vinham ao caso e um joelho que entregou a alma ao criador. Sobrevivi, trouxe sequelas, não fiquei mais crente, não senti o que a maioria das pessoas que faz este caminho sente. Fiquei de alma lavada por ter feito o que foi possível fazer e estou em paz com o assunto.
Maio trouxe a leveza de que eu precisava. De repente, o meu mundo entrou nos eixos, o que era tóxico ficou para trás e eu voltei a ser eu, tranquila, em paz comigo, de braços abertos e de olhos postos no futuro. Esperança foi a minha palavra de ordem.
Junho foi um mês para sossegar, não sossegando. A rotina da dança instalou-se, a lama desapareceu. Voltei a viver os santos populares como aprendi a gostar de fazer, a data deixou de me pesar e eu percebi que o passado era mesmo só passado. Foi o mês em que comecei a série One Red Crow, em parceria com o meu amigo João Corvo, continuo a adorar cada vez que as fotografias dele me alimentam a veia criativa. É o nosso equilíbrio perfeito entre palavras e imagens.
Em Julho houve as minhas férias com os miúdos (acabei cansada, naturalmente), mas houve também a certeza de que tinha finalmente encontrado a serenidade que precisava de ter para estar bem comigo, antes de conseguir estar bem com o resto do mundo. Julho foi toda a tranquilidade que eu procurava.
Agosto foi uma surpresa boa. Inesperada, sem expectativas, a fluir. Foi um sorriso à beira-rio e a pele arrepiada porque não demos pelo tempo passar. Se tivesse de resumir Agosto numa única palavra, essa palavra seria abraço.
Setembro trouxe-me o Caramelo e... agora que olho para trás, percebo: a vida deu-me os presentes que eu merecia, quando estive pronta para os receber. Em Setembro continuou a haver o doce e a leveza, a certeza de que estou bem no sítio onde estou.
Em Outubro deixei de comer carne, dei a minha primeira aula de kizomba, percebi que o ginásio estava a ser um problema, percebi que me deixei enrolar numa teia de que não gosto (a da auto-estima com lascas, que é coisa que me mói). Tive mais angústias do que sorrisos e a vida começou a mostrar-me que havia ajustes a fazer. Mas também me mostrou que vale a pena investir, que vale a pena o empenho e que é aqui que tenho de estar.
Novembro não foi fácil. Nada mesmo. O cerco (das minhas angústias) a apertar e eu a ter de me safar sem grandes alaridos. Fiz o que tinha de fazer: respirei fundo e levantei a cabeça. Foi em Novembro que mudei um bocadinho da minha casa. Fui pela primeira vez ao Estádio da Luz (e que abada, senhores...) e foi em Novembro que recuperei o rasto à minha turma do secundário. Foi tempo de parar um bocadinho, de deixar a poeira assentar e de tentar ver o que tinha de ser arrumado novamente. Queria ter aproveitado o mês para dar um bom avanço no meu livro e... não escrevi uma palavra sequer. Mas não faz mal nenhum...
Dezembro ainda não acabou mas já consigo (acho eu) fazer o resumo: cancelei o ginásio porque não conseguia ir treinar e uns dias depois anulei o cancelamento porque não consigo estar assim. Há coisas que vão ter de cair para que eu possa voltar como eu gosto, mas não faz mal, porque são coisas que não me acrescentam muito. Sinto mesmo que tudo se está a encaixar nos devidos lugares e que, aos poucos, tudo ficará mais calmo. Mantenho perto de mim as pessoas de quem mais gosto e isto é sempre o mais importante.
No geral, 2018 foi um ano muito bom. Muito, muito bom. Trouxe coisas e pessoas que me apaixonam, fez-me ferver o sangue, deu-me coisas por que lutar, deu-me sorrisos e abraços, trouxe-me as pessoas que faz sentido ter comigo.
Se tiver de pedir um desejo para 2019, quero apenas manter tudo. E crescer. Quero escrever mais, dançar mais, ler mais. Quero mais abraços, mais beijos e mais sorrisos. Quero memórias fortes, daquelas que se guardam para sempre. Quero amar e ser amada. Quero adormecer sempre com o coração em paz. É isso que levo de 2018: a certeza de que pus o meu coração no caminho certo, apesar dos tropeções, apesar de nem sempre a estrada ser plana e sem obstáculos. Quero ter a força que tiver de ter para enfrentar o que vier.
Como dizem os brasileiros... saúde e paz, o resto a gente corre atrás.
Boa semana, gente gira...
(Então que seja sem medo...)
Sete meses. Parecem sete anos. É aquele cliché básico, mas é verdade: parece que passou uma vida desde o dia em que entrámos, eu e a Lia, na aula do Diogo, perguntámos se podíamos experimentar e... eu nunca mais parei.
Na altura, senti que tinha chegado a casa. Era antiga a paixão pela dança, era antigo o amor pelo ritmo a invadir-me e a fazer-me mexer. Ali foi como se tivesse encontrado a minha dança, o meu casulo. Já dancei muita coisa, hei-de dançar muitas mais. Não sou da salsa, nem da bachata, nem do hip hop, nem do afro house. Sou da kizomba. E sou ainda mais do urban kiz.
Todas as manhãs há quem me veja dançar. É um ritual: entro no comboio, ponho os phones, escolho uma playlist de r&b calminha para vir a ouvir enquanto leio no comboio. Não me distrai, consigo concentrar-me. O comboio pára no Rossio e eu mudo a playlist: urban love e as músicas que não me permitem parar. Venho a ler na mesma, mas o ritmo nos pés é outro. Paro na gare do metro e às tantas estou a marcar o ritmo, não consigo sossegar nem quero saber. Sou das que dança onde tiver de dançar (e se andasse por ali um dos meus pares habituais, tenho a certeza de que dividíamos os phones e dançávamos juntos pela manhã, só porque sim).
Subo a rua ao ritmo dos tempos e contratempos, um dois três-e-quatro, não dou pela rua que vai ficando para trás, continuo a ler, é o meu bocadinho de introspecção diário e sabe-me tão bem. Não faço questão nenhuma de falar com ninguém, prefiro a solidão dos anónimos, eu e o mundo, cada um na sua bolha, tantas maneiras de sermos felizes, tantas maneiras de curarmos feridas. Uma das minhas curas é isto de dançar (e, obviamente, isto de escrever).
Ontem, aula de urban e os homens foram desaparecendo - em danças em que têm de liderar, o trabalho é muito mais duro para eles do que para nós; eles são leaders e têm de saber tudo, nós somos followers e só temos de nos deixar guiar. O Celso dançou com todas nós e deu-nos um pequeno feedback sobre a nossa evolução.
Falámos sobre um dos grandes problemas das mulheres na dança: a tentativa de adivinhação sobre o que os homens querem fazer a seguir. Eu era assim - às vezes ainda sou. Mas o meu momento de viragem foi quando respirei fundo e desisti de antecipar. Tenho de ser rápida nas respostas, mas não tenho de saber o que me vão perguntar - imagine-se a dança como um diálogo entre duas pessoas, eles perguntam, elas respondem. Se não soubermos responder, não há conversa. Mas não temos de adivinhar o que nos vão perguntar.
Ontem, na aula, sete meses depois, sorriso aberto e "tu estás muito melhor". Não preciso de mais nada. Só preciso de saber que estou no caminho certo - e sei que estou a ser ensinada pelos melhores professores que poderia ter. Celso, Mafalda, obrigada!
O ritual repetido infinitamente, caixas empilhadas na garagem, a ganharem pó até ao ano seguinte e, no primeiro domingo de Dezembro, a árvore falsa retirada da embalagem onde esteve o ano inteiro, as bolas vermelhas, há sempre uma que se parte e deixa pelo chão pedacinhos ínfimos de vidro e purpurinas, as bolas prateadas porque há muito que retirámos do Natal o brilho dourado, opulência de fachada, uma mentira como tantas outras.
Este ano desço à garagem sozinho, trago as caixas, tropeço em fios que arrumei sem cuidado no ano passado, as luzes enleadas e que se foda, não as ponho, os miúdos vão dar pela falta delas, uma árvore sem luzes é um espectáculo morto, porra que tenho de desembaraçar isto dê lá por onde der. Estico a fila de luzes meio fundidas, em tempos isto piscou numa coreografia perfeita, depois houve luzes que se apagaram e já não são luzes plenas, é apenas o que resta da vida que se apagou.
Nos anos anteriores, éramos cinco e não fazíamos isto sem a Mariah Carey aos berros, I don’t ask a lot for Christmas, this is all I’m asking for, todos a dançar desafinados, este ano troquei a Mariah por um copo de whiskey e espero que me anestesie da mesma maneira, a dor de cabeça que um me dá não deve ser muito diferente da do outro.
Este ano, a canção de Natal é a ausência deles, divididos entre nós, que nos dividimos também; as fitas que pus na árvore são fiadas de arame farpado, metáfora feroz dos corações feitos em papa; as bolas são cubos de gelo de arestas afiadas, uma transparência fugaz, um brilho falso e nada que me aqueça uma molécula sequer. Este ano o Natal é um fantasma pesado, a vida ligada à máquina, a recordação dolorosa do calor que arrefeceu.
| Fotografia de João Corvo |
Fui convidada a experimentar a nova carta do ET Portuguese e... bom, comida, Praça da Alegria, um fim de tarde frio e... claro que sim, vamos!
Desafios: um vegetariano, uma piscitariana. À partida, safava-me melhor do que ele, não é? Não. Foi igual. Pusemos o homem a comer peixe porque não há cá fundamentalistas e havia, vá, vontade de comer. Sem stresses, sem dramas.
Antes de falar da comida, o espaço: coração da Praça da Alegria (sorte: estacionámos mesmo à porta), sítio super acolhedor, preparado para refeições fora de horas (fecha às 2h) e preparado para sessões de trabalho (tomadas junto às mesas, uma luz bonita e... para mim, está maravilhoso). O espaço não é nada pretencioso (e ainda bem) e, apesar de termos partilhado a mesa com dois casais que não conhecíamos, não foi estranho. Deu para conversarmos os dois, deu para nos rirmos, deu para juntar mais um momento ao nosso leque de momentos leves e despreocupados (this is us, by the way).
A comida? A nova carta grita Portugal. Ou melhor: a carta assoma-se à janela, desvia os cortinados de renda, pousa os cotovelos no parapeito e assobia baixinho um fado dos antigos, o rio ao fundo e esta luz que só Lisboa tem. É a frescura da sardinha, o cheiro a fumeiro do chouriço, o bacalhau salgado no ponto certo, as texturas diferentes que casam tão bem e outras, que por serem mais inesperadas, parecem amantes sôfregos e inusitados.
Para entrada houve filete de sardinha em cama de pão com chouriço. Típico? Hell, yeah!
Também houve salada de bacalhau com pimentos e laranja. Lembram-se dos amantes inesperados? Pois. Tão bom!
O prato de peixe era bacalhau com pão de ovar (brutalíssimo) e puré de pimentos. Para mim, foi a estrela da noite, sem dúvida.
Depois veio a carne e bom... carré de cordeiro com crosta de pistáchio e cogumelos e... eu não adoro cordeiro e não sou a melhor pessoa para apreciar este prato, mas um dos rapazes da nossa mesa estava doido com aquilo. Pela minha parte, o pesto de pistáchio e o puré de cogumelos com a batata assada estavam de babar.
Para fechar, degustação de sobremesas. Neste ponto não chegámos a consenso: eu babei pelo pudim de laranja e gin, ele delirou com o salame. Os sorvetes estavam óptimos, o mil folhas também, mas os nossos corações penderam para os outros dois.
Gostámos muito do sítio, do jantar e do ambiente todo. A repetir? Claro que sim!!
(Obrigada ao ET Portuguese pelo convite!!)
Casados à Primeira Vista. A Lia e a Luísa já andavam viciadinhas nas versões estrangeiras disto. Tivemos jantarem em que a coisa era elas a debaterem aquilo e eu a pensar um rotundo "what tha fuck??", sem conseguir achar a mínima graça àquilo. E eu até tinha tudo para ser fãzérrima da coisa. Quer dizer, eu sou a pessoa que papa tudo quanto seja Casa dos Segredos, portanto os Casados eram o próximo passo. Só que não.
Acontece que o homem começou a comentar isto comigo, porque também vê. E eu lá vi aquilo um dia com ele. E agora sou eu que comento aquela porra. E que vejo os diários e as Galas ou lá como se chama aquilo ao domingo. Rendi-me, pronto. Bom, vamo'lá?
Primeiro ponto: se algum dia eu achar que preciso de ajuda especializada ali ao nível da terapia de casal, aquelas quatro pessoas estão claramente fora do meu leque de possibilidades. Eu sei que aquilo é televisão e sei que sem drama não há programa (que rima mai linda, não me lixem). Mas era difícil conseguir não acertar num casal que fosse. Quer dizer... ao menos que houvesse ali um capaz de nos fazer acreditar em milagres inesperados e tal... Mas não. Zero. Os matches que eles fizeram só os fazem parecer incompetentes, que é o tipo de coisa que se calhar não queremos passar para o mundo, uma vez que temos um negócio para manter. Não sei, digo eu.
Portanto...
Temos a destravada que precisava de equilíbrio e vai de a juntar com um gajo mais zen do que um exército de monges tibetanos. Se calhar não resulta. A parte mais interessante deste casal é o facto de ela estar assumida e conscientemente a tentar quebrar o seu próprio padrão: adora bad boys e lixa-se sempre (que novidade... been there, done that... e felizmente já me livrei desta onda). O marido que lhe calhou não é nada assim e ela está numa de tentar encarrilar. Parece-me inteligente. Não quer dizer que funcione, mas o princípio é bom.
Temos a senhora que parece que está sempre on fire e nada como juntá-la com um senhor que fala, fala, mas não faz nada. Para ver se ela se acalma e se ele arrebita. Ora... nem uma coisa, nem outra. Óbvio.
Depois temos um senhor que foge do amor como o diabo foge da cruz - apesar de se ter metido num programa cujo propósito é arranjar-lhe mulher. E casamo-lo com quem? Com a romântica inveterada, super querida e amorosa. Alguém vai sair daqui com dói-dói... e não vai ser ele... (e o tipo tem ar de quem vai matar a senhora enquanto ela dorme... eu não me sentia segura a dormir ao lado daqueles olhares aniquiladores, aviso já.)
O único casal que ainda não percebi por onde é que vai rebentar é o mais normalizinho/morno. Ali andam, sem grandes percalços, nada a declarar, vamos vendo e logo se decide. Ela precisa de mais calor, mas é um bocadinho fria... (identifico-me, pronto - mas estou muito melhor... se calhar até de mais...). Ele é o que se atira de cabeça sempre mas desta vez está cauteloso. Vá-se lá perceber...
Depois temos o tipo que é basicamente um psicopata. Anda ali de norte para sul, ora está bem, ora lhe dá a travadinha e desata a disparatar. Chama de falsa para baixo à mulher, mas diz que ela é a mulher da vida dele. Esqueceu-se de que, apesar de ter casado com ela, teria de a conquistar, e achou que era chegar e andar. Meu menino, nunca é. Trata a rapariga pior que eu sei lá o quê, faz birras, é manipulador, tem a mania que é diva e não há paciência para um desequilibrado deste calibre. A rapariga pode ter todos os defeitos do mundo mas, ao pé dele, é uma santa. E devia ganhar um prémio por estar há seis semanas a aturar este atrofiado.
Estou curiosa para ver no que isto vai dar. Não me parece que nenhuma destas combinações funcione, mas se tivesse de correr o risco, apostava na Eliana e no Dave e no Daniel e na Daniela. Não apostava era muito, porque o risco de falhar é grande...





