Já aqui disse isto mil vezes: a única coisa de me arrependo na vida é de não ter seguido a minha vontade e ter ido estudar psicologia forense, para acabar com os costados na PJ. Se há coisa que me cativa são psicopatas e sociopatas. Adoro aquelas mentes retorcidas, adoro tentar perceber o que leva aquelas pessoas a fazerem o que fazem, quando fazem asneiras da grossa.
Vai daí, tenho andado entretida com documentários sobre crimes reais (na maioria americanos, mas também ingleses e australianos). No meio disto tudo, deparei-me com uma história de que já tinha ouvido falar em tempos mas que, na altura, não explorei.
Em 2008, uma senhora sociopata obcecadíssima pelo ex-namorado achou por bem matá-lo. Até aqui, nada de novo, é só uma entre muitas. Detalhes: os requintes de crueldade da coisa (matou-o com 27 facadas, uma das quais de orelha a orelha que quase o decapitou e, não contente com isso, ainda pôs a cereja no topo do bolo em forma de tiro no meio da testa - amorosa, não é?) e a forma como se comportou durante todo o processo, incluindo interrogatórios e julgamento.
Ora aquela esperta decide que é boa ideia começar por ligar para a polícia a dizer que ouviu dizer que ele morreu e queria saber se era verdade. Vai daí, há toda uma conversa telefónica onde ela, calmíssima, fala como se efectivamente não soubesse nada sobre o assunto. Calha também que a polícia já a tinha debaixo de olho porque todos os amigos do morto, quando questionados sobre se haveria alguém capaz de lhe fazer aquilo, apontaram na mesma direcção: a dela.
Às tantas a rapariga é levada para interrogatório, ainda sem estar acusada de nada. E os detectives fazem aquela coisa clássica que vemos nos filmes: espetam com ela numa sala de interrogatório e deixam-na ali um bocado a marinar. E o que é que ela faz? Canta. Fala sozinha. E acaba a fazer o pino contra a parede. True story.
Começa o interrogatório e ela diz que não estava sequer naquela terra (Mesa, Arizona), que estava em casa (algures na Califórnia, a cerca de cinco horas de distância). Apertam com ela e afinal já estava lá em casa, mas o que aconteceu foi que entraram dois encapuzados (o termo "ninja" é usado várias vezes), um homem e uma mulher, e mataram o tipo. Ela, miraculosamente, conseguiu fugir (e a descrição que ela faz da fuga é de rir, de tão surreal). Apertam mais um bocado com ela e afinal já foi ela que o matou, mas foi em legítima defesa. Com 27 facadas e um tiro. E sem ter ficado com "defense wounds", que é logo uma boa coisa quando se quer usar o argumento da legítima defesa.
(Sim, este caso fascina-me assim... milhões.)
A senhora lá é detida, lêem-lhe os direitos e dizem que vão tirar a fotografia da praxe. E o que é que ela faz? Pergunta se lhe podem chegar a carteira, que queria dar um jeitinho à cara. (A mugshot dela é linda: está assim de cabecinha ligeiramente inclinada para a direita, olhos de bambi e... a sorrir. O normal quando se é preso por homicídio, portanto.)
Tenho andado a ver o julgamento que está na íntegra disponível no YouTube. O advogado de acusação é brilhante, encosta-a às cordas como ninguém. Mas ela, cortesia da sociopatia dela, não se desmancha. Não há nada que a faça vacilar. Não quebra. As vezes em que chora são claramente encenadas. A primeira vez que a vi chorar no julgamento foi quando apareceram as fotografias da autópsia do senhor.
[E agora a prova de quão fascinada ando com isto: ontem, no Instagram, numa das contas de medicina forense que sigo, aparecem estas fotos (as da autópsia, bem entendido). Bastou ver a primeira, em que se vê apenas o peito dele, para saber de quem se tratava. Não li legendas. Nada. Foi directo.]
Atalho para o fim da história: a senhora foi condenada a prisão perpétua sem hipótese de liberdade condicional. O senhor continua morto, naturalmente.
(Em caso de curiosidade, Jodi Arias e Travis Alexander.)
Nota final: nada temam. A minha curiosidade não apresenta perigo nenhum, nem para mim, nem para a sociedade em geral.





