É a agonia de te saber noutra casa, noutra cama, a pores comida noutros pratos, a abrires outras janelas, a dares água a outras plantas. O vómito de me desfazer a cada instante, antes tu, agora nada, a vida esbatida e rasurada, não foi nada disto que te pedi.
As promessas foram hiatos, a voz que te sai da garganta e não quer dizer nada, só as mãos na minha carne e apesar disso nada. Sempre nada. Nunca foi nada.
E tu imenso e tão vazio, silêncio frio de inverno a chegar.
E eu tão morta e tão sozinha. Fim.
Ora então, antes de mais, boa segunda-feira a todos e boa semaninha, sim?
Vamos falar de bonecada?
Esta coisa de usar um bullet journal é muito gira e tal, mas pode assustar. Se procurarem pelo tema nesse antro de perfeição que é o Pinterest, vão deparar-se com coisas nível Louvre. Não têm de fazer igual, ok? Não precisam de ser o Van Gogh para manter um bullet journal.
Eu gosto de desenhar. É uma coisa que me faz desligar de tudo e serve para descomprimir. Então, todos os meses escolho um tema de que goste e faço tudo a partir daí: escolho as cores que quero usar e penso na maneira de montar uma coisa minimamente coerente.
Para Setembro, apetecem-me faróis em tons de azul e vermelho. É aquela cena marinheira gira e meio retro.
Bom, eu faço sempre umas páginas que me dão um jeitaço, mas a maravilha do bullet journal é que ninguém manda em nós e cada um faz como quiser.
Portanto, uso um Mood Tracker porque é uma boa forma de ter uma percepção de como foi o meu mês. Desta vez fiz assim, em círculo (e calculei mal a coisa e deu aquele extra vermelho que... enfim...). Há mil maneiras de fazer isto, obviamente. Querem ver?
O Sleep Tracker ajudou-me a perceber que tenho de me deitar mais cedo e que tenho de largar a porra do telemóvel quando vou para a cama. Mas percebi que até durmo mais do que pensava...
Por fim, o Habit Tracker é uma óptima maneira de mudar e solidificar hábitos. Eu tenho as minhas categorias de eleição, mas é à vontade do freguês. Graças a isto, não me esqueço de tomar os meus suplementos e não vou para a cama sem tirar a maquilhagem, por exemplo.
Então e como é que podemos ter um bullet journal giro sem sermos artistas plásticos ao nível da Bienal de Veneza?
Fácil: autocolantes, washitapes e recortes vários!
Estes dois últimos exemplos são do meu mês de julho, que dediquei ao fundo do mar - fartei-me de desenhar anémonas e de pintar fundos do mar em aguarelas.
Portanto, onde é que isto se arranja? Aliexpress e Tiger, por exemplo. A Tiger tem tido uns conjuntos de autocolantes giros e coloridos que ajudam bastante. E o Aliexpress é um mundo onde só não conseguem comprar uma mãe (e vai daí... não sei, não...).
Então e aqueles papéis amarelados com letras, são o quê? São... páginas de um livro! Há uns meses, encontrei um carregamento brutal de livros ao lado do meu trabalho. Estava a chover e eu lixei-me para isso: pus-me de gatas a escolher o que queria levar para casa. No meio daquilo estava um livro com as páginas a saltar. Pensei imediatamente que ia usá-lo exactamente para isto!
E é isto. Como vêem, não precisam de ter umas super skills. Podem divertir-se com muito pouco. E o melhor de tudo é que podem adaptar tudo ao vosso gosto e às vossas necessidades. E se perceberem que uma coisa que fizeram este mês não funcionou, descartam e no mês seguinte já não repetem a dose.
[Contem-me tudo: gostam destes posts? é informação útil? Querem que fale mais sobre o tema? dúvidas e questões específicas, há?]
Sexta-feira, dia de sugestões por aqui... e hoje vamos a livros! Trago três que me roubaram cinco estrelas no Goodreads. Quem me segue por aqui já sabe do que a casa gasta: não sugiro nada que não valha MESMO a pena. E estes três valem bem todos os minutos que lhes possamos dedicar. Vamos lá?
"Li" este livro ainda no ano passado, mas ficou na memória. Pus aquele "li" entre aspas porque, na verdade, ouvi o audiobook. Não sei se já vos disse: adoro audiobooks. Ouço-os quando preciso de ter as mãos ocupadas, mas não o cérebro - a limpar a casa e a cozinhar, por exemplo. Uso uma app que me permite ouvir os livros a 1.5x a velocidade de leitura, o que faz com que consiga "despachar" um livro em coisa de 6 a 8 horas. E é uma forma maravilhosa de rentabilizar o tempo em que não precisamos de pensar.
Mas falemos do livro. A Celeste Ng, tal como a Liane Moriarty e a Gillian Flynn, é mestre na criação de personagens. Todas contam as suas histórias através das personagens que criam e não o inverso. Não sei se consigo explicar isto muito bem, mas sinto que há livros em que são as histórias que criam as personagens e há outros em que acontece o inverso. E são estes os meus preferidos. São livros em que a tensão não vem dos acontecimentos em si, mas das acções e reacções das personagens personagens.
Neste livro, vamos até Shaker Heights, uma pequena cidade nos Estados Unidos. Estamos no final dos anos 90 e vamos acompanhar a vida daquela comunidade através da vivência de duas famílias onde há vários adolescentes. O livro centra-se muito nos jovens e usa-os para contar a história que nos leva a conhecer o passado de Mia e da sua filha Pearl, recém-chegadas a Shaker Heights, e da família Richardson, que entra em confronto directo com Mia, graças a um acontecimento que abala a pequena comunidade.
Três irmãos perdem os pais num acidente de viação e são enviados para um colégio interno, onde crescem de maneiras completamente diferentes. Neste livro, acompanhamos o seu crescimento, os fossos que se criam entre eles e a maneira como a vida os vai reaproximando.
É uma história sobre pessoas e relações entre elas e o que nós temos aqui são corações e almas despidas à nossa frente, angústias e medos, certezas e desejos. E a história tem o ritmo certo, tem várias camadas que se interligam, tem tudo para ficar connosco durante imenso tempo.
Mais uma vez, somos levados pela mão durante a adolescência e acabamos a crescer com estas personagens.
Antes de mais, deixem-me dizer-vos que, se ainda não sabem que este livro existe, é porque têm andado a dormir!
Eu não sou nada de romances Young Adult, mas este tinha de ler. Porque se passa aqui, entre o Estoril e Lisboa, no final dos anos 90. Porque conta a história de Isabel, adolescente que cresceu sem redes sociais, sem tecnologia, sem ecrãs ligados o dia inteiro. Tal como eu. Apesar de ser meia dúzia de anos mais velha do que esta Isabel e de nem todas as referências serem as minhas, consegui viajar até à minha própria adolescência e matar saudades de tudo o que vivi.
As personagens têm vida, são reais, não são monocromáticas nem unidimensionais. A história em si é-nos dada com os solavancos próprios daquela idade em que nos estamos a descobrir a nós mesmos e ao que queremos da vida. Este livro está mesmo, mesmo, bem escrito e garanto-vos que vai valer a viagem!
A Helena foi ainda mais longe e criou uma playlist no Spotify, playlist essa que serve de banda sonora ao livro. E o que é que eu fiz? O óbvio: li o livro sempre com a playlist a tocar. Apesar de muitas daquelas músicas já me terem apanhado numa idade pós-adolescência, continuam a ser as músicas que eu também ouvia e cujas letras ainda hoje sei de cor. E se já estava completamente imersa no universo do livro, ainda mais fiquei.
Se ainda não me seguem no Goodreads, podem tratar disso aqui. Não vivo sem isto e é o sítio onde tenho o tracking das minhas leituras mais actualizado.
Ah, e estou a pensar em lançar-vos um desafio daqui a pouco tempo: e se lêssemos um livro em conjunto e debatêssemos ideias a seguir? Alinhavam?
[Quando escolhi os livros de que vos queria falar não reparei no fio condutor comum: a adolescência. Calhou... Mas só agora, quando acabei de escrever sobre eles, é que reparei neste pequeno detalhe. Se calhar é para me ir preparando, porque com uma filha quase a bater nos 12 anos, já vai sendo altura de começar a habituar-me à ideia...]
Há dias, no carro, a caminho de uma praia da Costa, crianças atrás, adultos à frente, tudo na santa paz do Senhor. Algures por ali, passamos ao lado de uma unidade hoteleira que tem a designação em letras garrafais. Do banco de trás, uma voz de macho pequeno pergunta:
- Mãe, o que é um motel?
Adulto condutor ri-se e olha para mim, à espera de ver como é que vou descalçar esta bota...
- Então, filho, é uma espécie de hotel, mas assim deitado, vês? Os hotéis costumam ser prédios altos. Os motéis são mais ou menos a mesma coisa, mas assim mais baixinhos e deitados...
(Por dentro, eu estava a gargalhar... e a fazer um esforço brutal para não me desmanchar.)
- Mãe, um dia podemos ir a um motel?
- Pode ser que vás, filho, mas assim quando fores mais velho...
Há dias, quando perguntei no Instagram sobre que assuntos gostavam que escrevesse, recebi vários pedidos no mesmo sentido: falar do divórcio. Como se sobrevive, como se reaprende a viver, como nos reconstruímos.
Esta questão fez-me pensar. Passaram três anos sobre a minha separação. Muita coisa aconteceu entretanto. Eu mudei. A minha vida mudou. Não adoro falar sobre isto porque, para o fazer, tenho de falar de outras pessoas que não eu. Mas vou tentar...
Então... como é que isto tudo se deu?
No meu caso, fui eu que me quis divorciar e acredito que isso facilite um bocadinho o processo todo. Mas só por um lado, porque, por outro, dificultou tudo ainda mais.
Fui eu que deixei de sentir e de querer. Fui eu que escolhi ser feliz. Foi a decisão mais difícil da minha vida, porque não me envolveu só a mim. Envolveu um (ex) marido e dois filhos. E esta foi a parte dolorosa. Tive de assumir que era eu que estava a desistir daquele projecto de vida. Foi por minha causa que os meus filhos deixaram de viver com o pai e com a mãe. Mas não é sobre o antes que vos quero falar. É sobre o depois.
Quando as águas acalmam, quando deixamos de viver na mesma casa, quando as novas rotinas se instalam, como é que se vive?
No meu caso, talvez por ter sido eu a querer divorciar-me, o processo não foi doloroso. Claro que o dia em que ele saiu de casa foi horrível. Mas depois não me custou. O facto de eu ter sempre vivido naquela casa ajudou. Antes de casar, vivi ali sozinha quase cinco anos. Antes disso, por ser filha única, estar sozinha já me era uma coisa familiar e confortável. As minhas rotinas não mudaram assim muito: já era eu que levava e trazia miúdos da escola, já era eu que fazia jantares e tratava da casa. Era o pai que lhes dava banho, mas eles cresceram e passaram a tomar banho sozinhos. Tenho a sorte de ter a ajuda impagável dos meus pais, mas já a tinha antes de me divorciar.
Mantive as coisas que já gostava de fazer: ler, ver filmes, praticar desporto, sair. Aproveitei os meus fins-de-semana sem filhos para investir em mim. Em muitos deles, entrei em casa na sexta à tarde e saí de casa na segunda de manhã e fiquei apenas no sofá, a ver filmes. Não por não ter onde ou com quem ir, mas por querer estar sozinha. Vi centenas de filmes. Centenas mesmo (em 2017, foram 106; em 2018 foram 147; 2019 já vai com 81). Li muito. Escrevi. Dormi. Jantei cereais. Almocei restos de comida já meio falecida às seis da tarde... sem horários, sem regras, sem ninguém a quem agradar a não ser eu.
Acabei de escrever o meu livro, fiz mil coisas que tinha andado a adiar só porque sim. Claro que a vida não ficou mais fácil - a nível financeiro, por exemplo, complicou-se. Mas fui vivendo um dia de cada vez.
E o coração?
Voltei a apaixonar-me. E demorei quase dois anos a recuperar de um coração partido, mas não trocava o que vivi. Aprendi muito sobre mim e sobre o amor. Houve alturas em que achei que isto de ter alguém que me amasse não era para mim. Duvidei muito de mim e percebi que não tinha (nem tenho) razões para isso. A vida acontece como tem de acontecer, resolve-se mesmo sozinha (como diz a minha Catarina) e eu demorei a confiar.
Continuo a querer refazer a minha vida. Quero amar e ser amada, mas estou em paz. Vou vivendo. Sou feliz. Sou mesmo feliz. Gosto muito mais de mim agora do que há três anos. Sou infinitamente mais forte e mais capaz. De tudo. Aprendi que renasço sempre. Venha o que vier, eu dou a volta e saio de tudo ainda mais forte. Parece um cliché, mas não é.
Claro que continuo a ter inseguranças e fraquezas. Claro que nem todos os dias acredito em finais felizes. Mas aprendi que o meu final feliz sou mesmo eu. E é isso que importa.
Portanto, se estás no meio de um furacão chamado divórcio, o que te quero dizer é que vai (mesmo) ficar tudo bem. Aproveita para estares contigo, para te conheceres de novo, para gostares ainda mais de ti. Foca-te em ti e no que te faz feliz. Respira. E vive um dia de cada vez. Quando deres conta, passaram três anos e já estás em paz.
Não te vi fugir. Não foste o desertor que se funde com a paisagem até se tornar fumo e névoa. Não foste o verbo da ausência nem a casa de porta encostada. Foste a vida em modo promessa, viver agora o que queremos viver depois, a antecipação do amor. Foste a fotografia envelhecida na moldura, o nome que herdaram os que vieram depois de ti. Foste o propósito e a consequência, o silêncio entre palavras, sempre maiores os intervalos do que as permanências. Foste a história contada sem artefactos e todos os beijos que ficaram por dar. Nunca te entendi.











