Ela nunca me disse, mas eu sabia. Olhava-a nos olhos e sabia que aquilo só podia ser amor. Não sendo amor, como é que se tolerava aquilo, a dor, a carne rasgada, a pele em sangue, os ossos visíveis a perfurarem a pele? Não sendo amor, como é que se toleravam as palavras rudes, os insultos, a violência? Eu sabia que era amor. Ela não aceitaria nada a não ser por amor. Ter-se-ia ido embora, teria levado tudo, ter-me-ia deixado sozinho, teria partido sem deixar rasto nem maneira nenhuma de a encontrar. Não sendo por amor, talvez fosse por medo.
[Há uns anos, eu tinha uma secção no blog que se chamava qualquer coisa como "não há nada que não me aconteça". Estou a pesar seriamente em ressuscitar essa secção...]
Ontem o meu filho tinha uma consulta aqui em Lisboa. Dona avó trouxe-o e eu fui ter com eles. Já estávamos despachados e fomos para os elevadores. Juntou-se mais uma série de pessoas, chegou um elevador, as pessoas que chegaram depois de nós decidiram entrar no elevador sem respeitar porra nenhuma, pelo que sobrámos nós e outro senhor, que devia andar aí pelos seus 60 anos. Eu e a minha mãe estávamos a falar sobre a consulta do miúdo, entretanto chega outro elevador e entramos os quatro nele. Acontece o seguinte:
Senhor: olhe, desculpe, se é para o menino tirar sinais, peçam uma segunda opinião. Aqui há uns anos, pediram-me mil e quinhentos contos para ser operado à próstata. Eu fui ver de outro médico, acabaram por me operar por setecentos e cinquenta. So tive de fazer radioterapia e fiquei à mesma com tesão. Aqui queriam-me fazer outro tratamento e ficava sem tesão. Por isso, é melhor irem ver de outro médico...
Eu ia murmurando uns "hum-huns" ali pelo meio e dei por mim a olhar para a minha mãe e a tentar (com muito esforço) não me rir...
Há duas semanas escrevi sobre a minha experiência pós-divórcio, sem aprofundar nenhuma vertente em particular. Recebi imensas mensagens e decidi ir falando sobre a coisa mais em detalhe (obviamente sem entrar em... detalhes).
Acho que, para a maioria das mulheres que passa por um divórcio ou separação (estou-me nas tintas para que nível de casamento viveram - casamento civil, religioso, ajuntamento, namoro, o que for), o maior medo que vem com isto é o de ficarem sozinhas para sempre - o medo de não voltarem a amar, de não voltarem a encontrar alguém que as ame e que as faça felizes.
Sejamos honestos: salvo raríssimas excepções, ninguém gosta de estar sozinho. A ideia de passar a vida toda a solo pode ser absolutamente assustadora. Mas.
A única base sólida para uma relação feliz é uma felicidade imbatível a solo. Parece contraditório, mas não é. E isto que vou dizer vai soar a merda à la Gustavo Santos, mas é a mais pura das verdades: nós não podemos pôr a nossa felicidade nas mãos de ninguém. Para já, porque é arriscado e porque a probabilidade de dar asneira é gigante. Depois porque ninguém tem de ter a responsabilidade de nos fazer felizes. A felicidade de cada um de nós é da exclusiva responsabilidade de... cada um de nós.
A ideia de termos uma relação não é que ela nos complete enquanto pessoas. É que ela nos transborde. Se nos sentirmos incompletos vamos estar a dar ao outro um poder sobre nós que ele não pode nem deve ter. Se nos sentirmos incompletos, o mais provável é que nos contentemos com a primeira merda que aparecer. E não pode.
Precisamos de uma pessoa que nos acrescente ao todo que nós já somos. Que nos faça ir mais além. Que nos ame com tudo e apesar de tudo. Mas não precisamos de ninguém para vivermos felizes. E enquanto não aprendermos a estar felizes sozinhos, muito dificilmente uma relação correrá bem.
Posto isto, há aqui alguns pontos claramente positivos nisto de se ser solteiro e que vão ajudar a preparar-nos para o que a vida nos trouxer, quando estivermos prontos para amar e para nos deixarmos amar.
Nota prévia: não vivo sozinha e obviamente não estou a incluir os meus filhos enquanto parte de um casal. Eles são a minha prioridade, mas não ocupam o espaço do namorado.
Estarmos sozinhos permite-nos focarmo-nos apenas em nós. Deixamos de ter de incluir na equação as vontades, as rotinas e as necessidades de outras pessoas e passamos a ser só nós. Isto pode ser visto como a epítome da solidão ou como o expoente máximo do self-care. Eu escolho ver por este segundo prisma. Estar sozinha permitiu-me ouvir as minhas próprias vontades e trabalhar em mim. Permitiu mimar-me, cuidar de mim e pôr-me em primeiro na minha lista de prioridades. Estar sozinha fez com que eu visse realmente quem eu sou e obrigou-me a pensar no que quero para mim, em quais são as minhas necessidades e os meus desejos.
Ser solteira é ser dona de todo o meu tempo. Faço o que quero, como quero e quando quero. E se não quiser fazer... não faço. Simples assim. Se quiser jantar às quatro da tarde, janto. Se não quiser jantar de todo, não janto. Se me apetecer ficar uma noite inteira no sofá, fico. O tempo é meu e eu faço o que eu quiser.
Pessoalmente, sou dona de um espaço reduzido, pelo que não sinto grande diferença neste aspecto. Mas não preciso de dividir um sofá. E se estiver um calor que não se aguenta, posso dormir atravessada na cama. As gavetas da casa-de-banho são todas minhas. O roupeiro é só meu. Eu decido se quero as almofadas verdes ou azuis, se quero ali aquele quadro ou se quero bancos ou cadeiras na cozinha. E não pergunto a ninguém.
Se me apetecer estar sozinha, estou. Se me apetecer sair e conviver, saio. Eu decido. O ritmo é o meu, as vontades, mais uma vez, também. Estar sozinha permite-me conhecer pessoas e dar-me a conhecer (e estou a falar sem segundas intenções).
Uma das coisas que mais tentei fazer enquanto estive solteira foi conhecer sítios novos e fazer coisas que nunca tinha feito. Claro que é maravilhoso partilhar isto em casal, mas nada impede que se faça a solo. Há uns anos, ainda tinha algum pudor em fazer certas coisas sozinha (como seja ir jantar fora ou sair à noite), mas deixei de ter. Quero ir, vou. Simples.
A sociedade impõe muita coisa que as mulheres não podem ou não devem fazer, seja porque são coisas perigosas, seja porque as faz ficar mal-vistas. Guess what? Caguei. Lixei-me para as convenções sociais e decidi que o meu único limite é o da bondade e o da minha dignidade. Não faço nada que prejudique ninguém e não faço nada com que não me sinta confortável. Mas isso vale para quando estou solteira e para quando não estou.
Em resumo: eu usei os meus anos de solteira para cuidar de mim. E só quando me senti verdadeiramente tranquila, segura e em paz com a mulher que sou agora é que me permiti abrir a porta à possibilidade de acrescentar alguém à minha vida. Continuo a sentir-me dona de mim, não abdiquei de nada, porque aprendi exactamente quem sou. E só faz sentido assim.
Ninguém sabe o dia de amanhã. Nada me garante que passe o o resto da vida acompanhada, como nada me garante que fique sozinha. Nunca saberei. Mas sei que estou preparada para ambos os cenários e que, aconteça o que acontecer, hei-de saber lidar.
Portanto, conselho de amiga: invistam em vocês, foquem-se em vocês e mentalizem-se de que nunca ninguém vos vai dar o amor de que vocês precisam. Esse amor tem de estar dentro de vocês. Cultivem-no.
A ideia de termos uma relação não é que ela nos complete enquanto pessoas. É que ela nos transborde. Se nos sentirmos incompletos vamos estar a dar ao outro um poder sobre nós que ele não pode nem deve ter. Se nos sentirmos incompletos, o mais provável é que nos contentemos com a primeira merda que aparecer. E não pode.
Precisamos de uma pessoa que nos acrescente ao todo que nós já somos. Que nos faça ir mais além. Que nos ame com tudo e apesar de tudo. Mas não precisamos de ninguém para vivermos felizes. E enquanto não aprendermos a estar felizes sozinhos, muito dificilmente uma relação correrá bem.
Posto isto, há aqui alguns pontos claramente positivos nisto de se ser solteiro e que vão ajudar a preparar-nos para o que a vida nos trouxer, quando estivermos prontos para amar e para nos deixarmos amar.
Nota prévia: não vivo sozinha e obviamente não estou a incluir os meus filhos enquanto parte de um casal. Eles são a minha prioridade, mas não ocupam o espaço do namorado.
EU
Estarmos sozinhos permite-nos focarmo-nos apenas em nós. Deixamos de ter de incluir na equação as vontades, as rotinas e as necessidades de outras pessoas e passamos a ser só nós. Isto pode ser visto como a epítome da solidão ou como o expoente máximo do self-care. Eu escolho ver por este segundo prisma. Estar sozinha permitiu-me ouvir as minhas próprias vontades e trabalhar em mim. Permitiu mimar-me, cuidar de mim e pôr-me em primeiro na minha lista de prioridades. Estar sozinha fez com que eu visse realmente quem eu sou e obrigou-me a pensar no que quero para mim, em quais são as minhas necessidades e os meus desejos.
TEMPO
Ser solteira é ser dona de todo o meu tempo. Faço o que quero, como quero e quando quero. E se não quiser fazer... não faço. Simples assim. Se quiser jantar às quatro da tarde, janto. Se não quiser jantar de todo, não janto. Se me apetecer ficar uma noite inteira no sofá, fico. O tempo é meu e eu faço o que eu quiser.
ESPAÇO
Pessoalmente, sou dona de um espaço reduzido, pelo que não sinto grande diferença neste aspecto. Mas não preciso de dividir um sofá. E se estiver um calor que não se aguenta, posso dormir atravessada na cama. As gavetas da casa-de-banho são todas minhas. O roupeiro é só meu. Eu decido se quero as almofadas verdes ou azuis, se quero ali aquele quadro ou se quero bancos ou cadeiras na cozinha. E não pergunto a ninguém.
OS OUTROS
Se me apetecer estar sozinha, estou. Se me apetecer sair e conviver, saio. Eu decido. O ritmo é o meu, as vontades, mais uma vez, também. Estar sozinha permite-me conhecer pessoas e dar-me a conhecer (e estou a falar sem segundas intenções).
COISAS NOVAS
Uma das coisas que mais tentei fazer enquanto estive solteira foi conhecer sítios novos e fazer coisas que nunca tinha feito. Claro que é maravilhoso partilhar isto em casal, mas nada impede que se faça a solo. Há uns anos, ainda tinha algum pudor em fazer certas coisas sozinha (como seja ir jantar fora ou sair à noite), mas deixei de ter. Quero ir, vou. Simples.
O CÉU É O LIMITE
A sociedade impõe muita coisa que as mulheres não podem ou não devem fazer, seja porque são coisas perigosas, seja porque as faz ficar mal-vistas. Guess what? Caguei. Lixei-me para as convenções sociais e decidi que o meu único limite é o da bondade e o da minha dignidade. Não faço nada que prejudique ninguém e não faço nada com que não me sinta confortável. Mas isso vale para quando estou solteira e para quando não estou.
Em resumo: eu usei os meus anos de solteira para cuidar de mim. E só quando me senti verdadeiramente tranquila, segura e em paz com a mulher que sou agora é que me permiti abrir a porta à possibilidade de acrescentar alguém à minha vida. Continuo a sentir-me dona de mim, não abdiquei de nada, porque aprendi exactamente quem sou. E só faz sentido assim.
Ninguém sabe o dia de amanhã. Nada me garante que passe o o resto da vida acompanhada, como nada me garante que fique sozinha. Nunca saberei. Mas sei que estou preparada para ambos os cenários e que, aconteça o que acontecer, hei-de saber lidar.
Portanto, conselho de amiga: invistam em vocês, foquem-se em vocês e mentalizem-se de que nunca ninguém vos vai dar o amor de que vocês precisam. Esse amor tem de estar dentro de vocês. Cultivem-no.
Cá dentro jazem eles, os que matei porque não conseguia ouvi-los, os que escondi entre palavras sussurradas, os que gritam e pedem que os salve. Cá dentro jazo eu, morto e inacabado, uma vida de mil vidas, às vezes maior que o silêncio que me engole, outras vezes apenas um farrapo de desespero. Sou eu que vivo tanta gente e não sei de todos, nem sempre os reconheço quando aparecem, nem sempre lhes abro a porta, mas eles entram sempre, ganham cada batalha, tornam-me num cenário de guerra manchado de sangue e de recordações que não são minhas. Antes morresse.
Começa hoje o novo ano lectivo (para a maioria dos miúdos, vá). Acabaram os três longos e penosos meses de férias (para os pais, que às tantas já não sabem o que hão-de fazer aos filhos, e para os filhos, que às tantas já não têm mesmo nada para fazer). Hurray...
Então e por cá, como foi?
Bom, começámos com uns clássicos...
- Mãe, o que é que eu visto? (Eu é que sei? Escolhe a tua roupa, ora!)
- Mãe, já estamos atrasados? (Não, porra! Acordei-vos cedo para não nos atrasarmos...)
- Ó mãe, ela 'tá-me a chatear... / Ó mãe, ele não me dá espaço no lavatório... / Ó mãe... / Ó mãe... (fodaaaaaa-se.....!)
- Trânsito de merda à porta da antiga escola dela porque a) aqui a esperta da mãe resolveu fazer o mesmo caminho que, sim, é mais curto, mas não deu o devido desconto aos mil e novecentos carros que iam estar a largar putos lá à porta e b) porque andaram a fazer uma ciclovia que reduziu bastante as faixas de rodagem, então agora só dá para passar um carro para cada lado porque estacionamentos e largada de miúdos e afins e aquilo está tud absolutamente empandeirado e ninguém anda...
E o meu clássico favorito, mas assim de longe: GREVE! Sim, há greve de funcionários no primeiro dia de aulas. Curiosamente calha a uma segunda-feira num mês em que não há feriados, but hey... who's counting? (Já sei, já sei: o direito à greve e as eleições e mimimi... outra vez arroz!). Portanto, primeiro dia de aulas e a miúda está onde? Em casa da avó. Adoro.
No primeiro fim-de-semana de Agosto deu-se o grandioso evento anual que são as festas da terra da minha mãe. Ora a terra da minha mãe é uma aldeia perdida no Alto Alentejo onde se passa basicamente... nada.
(Pequeno parênteses: nos anos áureos da minha adolescência, nada era coisa que certamente não se passava ali. Vivi histórias giras, giras, naquela terra, fiz amigos que adoro e com quem, apesar de passar meses sem falar, tenho uma proximidade que não tenho com amigos mais presentes. Era o tempo das noites nas fontes, do pão quente às quatro da manhã, das bebedeiras de vodka que não acabaram em coma alcóolico sabe Deus como, das primeiras paixões, dos bailes até às tantas, das açordas de madrugada, das cartas trocadas durante o resto do ano, de contar os dias para ser Agosto novamente e irmos todos para lá...)
Bom, eu já estou naquela geração que passa as festas lá sentadinha numa cadeira a olhar para o relógio à espera que sejam horas de regressar ao quartel, mas a minha filha está a chegar à idade em que começa a querer viver aquilo de outra maneira. Já começa a ter os amigos de lá, já me desaparece durante meias horas para estar lá sentada num muro, à conversa com os amigos. Não há-de faltar muito para começar a ir beber água às fontes, mas isso é outra conversa.
Este ano, logo na primeira noite, apanhámos uma senhora acordeonista que cantava, vá, mal. Diz aqui a menina para a sua filha:
- Leonor, quando disseres que eu canto mal, lembra-te desta senhora, ok?
- Podes crer, mãe... nunca pensei que houvesse alguém que cantasse pior do que tu...
A coisa ficou assim, sofremos mais um bocado, eu bebi mais uma sangria e o assunto morreu.
Na semana passada, íamos os três no carro quando eu decidi que era boa ideia cantarolar o que estava a dar na rádio. E lá de trás ouço um...
- Olha, mãe, eu só não digo que és a pior cantora do mundo porque lembro-me bem daquela mulher na aldeia...

