Não sei exactamente quando começaram, nem porquê. Sei que um dia dei por mim a tremer, sem conseguir respirar, sem entender o que se passava. Percebi depois: tinha tido um ataque de pânico. Precisei de racionalizar aquilo: porque é que me tinha acontecido? O que o tinha espoletado? O que é que eu senti? Como é que aquilo passou? Fiz alguma coisa para controlar?
Respirei fundo. Pensei muito sobre o assunto. A minha vida estava caótica, entre problemas pessoais, financeiros e um cansaço extremo que eu simplesmente não podia sentir porque sou mãe solteira e, por muita ajuda que tenha (e tenho, dos meus pais que são incansáveis a apoiar-me a mim e aos meus filhos), não podia ir-me abaixo. Por qualquer razão que desconheço, sinto sempre que não posso falhar, que não posso adoecer, que não posso quebrar. E vou-me mantendo em pé, às vezes - demasiadas vezes -, nem eu sei como. Estava no meu limite e mal conseguia pensar direito. Mas acabou por passar. Tive mais alguns episódios, mas nada de muito preocupante - e agora sei o quão preocupante isto é, mesmo que sejam situações pouco graves. Porque, mais cedo ou mais tarde, os ataques de pânico regressam em força. Foi o que me aconteceu.
Já estávamos de quarentena há umas semanas quando o meu gato mais novo adoeceu. Levei-o ao hospital veterinário. Estava calor, eu entreguei o gato à veterinária e fui esperar no carro. Pus os óculos de sol e comecei a ler no Kobo. A dada altura, começo com tonturas e sem conseguir juntar as letras. De repente, todas as palavras que estavam à minha frente eram numa língua que eu desconhecia. Não conseguia ler absolutamente nada. Peguei no telefone e entrei no Instagram. Apareceu-me no feed uma conta que sigo há anos. Olhei para o nome da mulher e não o reconheci. Fiquei a pensar em que nome seria aquele. Reconhecia perfeitamente a mulher, mas não lhe associava aquele nome. Simplesmente foi como se nunca o tivesse visto na vida.
Liguei ao meu namorado e não consegui falar. Disse coisas desconexas. Tentei dizer-lhe que estava a dizer só coisas desconexas e a palavra desconexas não me saía. Disse não sei quantas coisas absurdas. Entretanto chamaram-me, paguei a conta, trouxe o gato e a medicação e vim para casa. Não me lembro de fazer o percurso. São uns 5 ou 6 quilómetros que não sei como conduzi. Não sei onde deixei o carro. Sei que peguei no gato, entrei em casa e disse à minha filha que precisava de me deitar e de dormir, porque entretanto tinha ficado com uma dor de cabeça fortíssima. Tomei um Ben-U-Ron e deitei-me. Já não me lembro se demorei muito a adormecer. Ela sentou-se ao meu lado na cama, com um bloco de notas na mão, e ficou ali durante uma hora e pouco, enquanto eu dormi. Apontou tudo o que aconteceu nesse tempo. Disse-me que passei o tempo todo a falar, a dizer coisas soltas, e a tremer. Quando acordei, ainda me doía a cabeça, mas já me sentia mais eu. Voltei a ler coisas e as palavras voltaram a fazer sentido. Mas fiquei assustada.
Socorri-me do Dr. Google. Aparentemente, tinha tido um mini-AVC, coisa que normalmente antecede um AVC a sério. Obviamente, não me fiei naquilo. Liguei ao meu compadre, irmão do meu melhor amigo e padrinho de 20 coisas na minha vida. Expliquei o que se passou. Perguntei sobre o mini-AVC. Diagnóstico descartado. Perguntou-me se eu andava enervada ou cansada. Enervada era um understatement. Andava em ebulição. O medo do vírus, a situação escolar dos meus filhos, o ter de tratar deles e de mim, o ter de os acompanhar na escola, o ter de trabalhar, o ter de cuidar da casa e a incerteza financeira sobre ordenados e empréstimo da casa estavam a dar cabo de mim. E foi assim que quebrei, num ataque de pânico brutal e grave, que podia ter corrido muito mal (quer dizer, eu andei a conduzir naquele estado...).
Esta questão da saúde mental é traiçoeira, quando se juntam traços de personalidade complicados com realidades difíceis. Eu sou hiper-perfeccionista. Não me permito falhar. Sinto-me sempre sob escrutínio. Não posso ser menos do que uma mãe de nível olímpico. Não posso falhar com dinheiro porque tenho a meu cargo duas crianças. Não posso. Não posso. Não posso. E a pressão é absurda. Sinto sempre que tenho de estar a fazer qualquer coisa: se já não são horas de trabalhar, são horas de tratar da casa, de lavar roupa ou de fazer outra coisa qualquer. O simples acto de me sentar no sofá porque preciso de descansar não acontece. E um dia o vaso quebra. Quebrou naquele dia.
E o que é que eu fiz? Nada. Passou, resolveu-se, siga. Erro. Erro gigante, eu sei. Porque, quando acontecer de novo, vai ser ainda pior. E, se calhar, vai ser ainda mais descontrolado. Eu sei que preciso de ajuda. E, muito honestamente, não a procurei nesta fase porque entretanto as coisas acalmaram, eu fiquei mais tranquila em relação a esta pandemia toda e ao que isso mudou na minha vida. E como tudo acalmou, não me apetece propriamente andar em consultórios sem ser absolutamente necessário. O problema é que isto, SIM, é absolutamente necessário. É disto que dependem uma série de coisas, nomeadamente o meu bem-estar. E o meu bem-estar não é um luxo - é uma coisa essencial. O problema é que eu continuo a ter um sentimento de culpa enorme em relação a isto tudo. Descansar significa que sou preguiçosa. Estar esgotada não se justifica porque nem sequer estou a trabalhar fora de casa. Queixar-me do trabalho que dá acompanhar o estudo em casa e cuidar a tempo inteiro e a solo de dois miúdos é impensável porque não faço mais do que a minha obrigação. E eu sei, racionalmente, que isto está tudo errado. Mas isto continua a ser o meu pensamento-base. É isto que tenho inculcado na minha mente. E é muito por isto que sim, preciso de tratar de mim. Mas o medo de ser vista como incapaz nas diversas áreas da minha vida acaba por me congelar e por me fazer tentar resolver a coisa sozinha.
Sinto que aquele ataque de pânico foi um abre-olhos. E sei que preciso de cuidar de mim e de resolver a questão do cansaço e tudo o resto que me tem minado. Eu sei que sim. E é isso que vou fazer. Antes que seja tarde de mais.






